Milan Kundera
sexta-feira, 28 de agosto de 2015
PERSONA/PERSONAGEM/MÁSCARA.
A palavra personagem deriva do
grego persona, e desta mesma raiz etimológica nasceu a palavra pessoa.
Os
gregos deram este nome ao orifício que ficava localizado na boca das máscaras
teatrais, e que ´´personava`` a voz dos atores. Per sonare significa ´´soar
através de``. Porém, foi no período romano que surgiu o termo personagem, palavra
latina que tem origem no etrusco, ´´phersu`` .
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| Máscara do teatro grego. |
Literalmente, persona significa
máscara, e por este motivo está diretamente associada às máscaras que usamos
para representar os diversos papéis sociais. Portanto, a personagem é a representação de um papel social vivido por um ator ou
incorporado na imaginação do público, quando aquele não está fisicamente presente.
É a personagem que coloca a história
ou obra em ação, seja ela real ou ficcional. Em geral personagens do cinema, teatro,
Tv, quadrinhos e afins, são representados por pessoas, mas podemos encontrar
humanizações em animais, objetos e sentimentos. Por este motivo podem ter nome
ou não, e possuir qualquer tipo de personalidade.
No drama sueco Persona, (Quando duas Mulheres Pecam), o diretor Ingmar Bergman aborda o tema da representação social de forma reflexiva e complexa, uma vez que acontece uma fusão entre as personagens femininas a ponto de não reconhecerem mais a sua real face. A sinopse do filme descreve que :
´´Após um desempenho na peça "Electra", uma famosa atriz, Elisabeth Vogler (LIv Ullmann), pára de falar. Sua psiquiatra, Lakaren (Margaretha Krook), a deixa sob os cuidados de Alma (Bibi Andersson), uma dedicada enfermeira. Como já fazem três meses que Elisabet não profere uma palavra, Lakaren decide que ela deva ser mandada para uma isolada casa de praia, com Alma. Na casa Alma fala pelas duas, pois Elisabet continua muda, comunicando-se apenas com pequenos gestos. Com o convívio Alma fica uma pouco enamorada pela atriz. Num dia conta para Elisabeth sobre uma excitante experiência sexual que teve numa praia, com desconhecidos, e a conseqüência desagradável disto. Pouco depois de fazer esta confidência ela lê uma carta que Elisabeth tinha escrito, onde fica chocada ao descobrir que a atriz pensa nela como um divertido objeto de estudo. `` (http://www.adorocinema.com)
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| Cena do filme Persona, de Ingmar Bergmam |
Interessante observar que o diretor, na medida em que coloca a personagem Alma para falar por Elisabet, reitera o princípio que conceitua a palavra persona.
Este filme é um dos clássicos de Bergmam, e que muito embora seja complexo na sua abordagem e leitura, torna-se imperdível justamente por isso. Para conferir assista o filme, e mais abaixo o vídeo onde o jornalista e crítico de cinema, Marcelo Janot, analisa a obra.
Dayse Marques
Dayse Marques
quarta-feira, 26 de agosto de 2015
VERDADES SECRETAS DOS NARCISOS CONTEMPORÂNEOS
Diariamente entramos em
contato com uma diversidade de tipos com os quais estabelecemos uma curiosa
conexão. Seja através da televisão, do cinema ou do teatro, as personagens são
representações dos arquétipos, mitos e símbolos, com os quais nos identificamos.
Reais, históricas ou ficcionais, são simulacros de verdades e conceitos. Por
este motivo, é muito comum encontrarmos personagens cujos traços tipificam os
assuntos cotidianos.
Um dos temas mais explorados
na atualidade refere-se às questões que envolvem a beleza, seja ela feminina ou
masculina, o fato é que o assunto está cada vez mais em pauta.
Não é de hoje que a
representação dessa temática vem sendo explorada tanto pela
literatura quanto pelo cinema, teatro e tv. Assim, o clássico mito de Narciso,
construído pela mitologia grega e fartamente interpretado por diversos
pintores e escritores, encontra na atualidade o seu similar.
Segundo a mitologia, Narciso
foi um herói da Beócia, que possuía uma destacada beleza, e por esse motivo encantava
tanto homens quanto mulheres. No dia em que nasceu, o adivinho Tirésias
profetizou que o jovem teria vida longa, desde que jamais admirasse a sua
própria figura. Porém Narciso era orgulhoso e arrogante, e desprezou diversas
ninfas que estavam apaixonadas por ele. Segundo a mitologia, Afrodite executou
uma vingança e condenou Narciso a apaixonar-se pela sua própria imagem refletida na lagoa da ninfa Eco. E assim, o belo jovem definhou. Depois de sua
morte Afrodite o transformou na flor narciso.
O escritor Oscar Wilde
explorou o assunto, no final do século XIX, no seu clássico O Retrato de Dorian
Gray, onde a personagem narcisista criada por Wilde, faz determinadas escolhas
para eternizar a sua juventude. As questões que estão por trás desta personagem
encontram-se em destaque na atualidade, são elas: a manutenção da juventude e
da beleza e o medo de envelhecer. Daí porque cirurgias plásticas, academias e
drogas para rejuvenescimento estão cada vez mais em evidência.
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| Retrato de Dorian Gray |
Narciso era belo e orgulhoso, e por este motivo despertou tanto atração e repulsão, de modo que o mito nos
permite refletir que a beleza pode ser perigosa e destruidora. E por isso suscitar inveja e obsessões.
Na novela Verdades Secretas, (TV Globo-RJ-Brasil) a personagem Angel/Arlete (Camila Queiroz) é a jovem bela que
desperta a paixão de Alex (Rodrigo Lombardi), um homem bem mais velho do que
ela. Obcecado pela doce e linda Angel, Alex comete loucuras para não a deixar escapar
da sua posse e controle.
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| Angel e Alex - Verdades Secretas |
Na verdade, ficamos sabendo
durante o desenrolar da história que Alex sempre teve interesse por meninas, sendo Angel a que mais o atraiu. Porém a ninfeta irá rejeitá-lo mais de
uma vez, despertando ainda mais em Alex, o interesse, a cobiça e o sentimento
de posse. Observamos então que a relação entre a protagonista e o seu par desenrola-se entre amor e ódio. Ao sentir que está perdendo terreno para o
jovem amante da Angel, o estudante, Gui/Guilherme (Gabriel Leone), Alex começa a
perder o controle e a evidenciar claramente a sua irritação diante da situação
que se apresenta.
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| Angel e Guilherme - Verdades Secretas |
Tudo caminha para um final
trágico, pois a relação entre Angel e Alex gira em torno da atração e repulsa, e
a tentativa de eternizar a juventude a partir dos desejos do homem mais velho.
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| Angel e Alex - Verdades Secretas |
A relação Angel/Alex rebate
também no clássico Lolita, do escritor Vladimir Nabokov publicado nos anos
1950, cuja juventude e beleza da personagem feminina atormenta a vida de um
professor de filosofia. Neste clássico, o homem maduro (Humbert Humbert) é um
professor de 37 anos que se apaixona pela menina de 12 anos. Após a trama
conturbada, em que o professor acaba por tirar a vida de um homem, Humbert
declara que o romance na verdade é a memória da sua vida, mas que só deveria
ser publicado após a sua morte e da Lolita, para que ambos pudessem conservar a
imortalidade.
Segundo Pausânias, (geógrafo
e viajante grego) ao analisar o mito, Narciso tinha uma irmã gêmea e ambos se
vestiam da mesma forma. Narciso apaixonou-se por ela, porém quando sua irmã
morreu o jovem ficou desgostoso, e procurou ver no reflexo da água o rosto da sua
irmã. Aprisionado, o jovem morre diante dessa ilusão imagética e aonde o corpo
se encontrava surgiu uma flor que possui o seu nome. Aqui vale a pena nos
voltarmos para o psicanalista Carl Gustav Jung, que estabeleceu os conceitos de
Anima (personalidade interior feminina no homem) e Animus (personalidade
interior masculina na mulher)
Assim, da mesma forma que no
clássico Lolita, a relação entre Alex e Angel nos mostra o jogo complexo entre
as partes femininas e masculinas que todos nós carregamos, e que por elas
muitas vezes nos sentimos atraídos, mas que também rejeitamos.
A manutenção da beleza e também da juventude, é um
trabalhoso exercício que aprisiona. Tanto na literatura como na
novela, citadas aqui, são os personagens masculinos que se servem desse elixir,
através das paixões e do desejo que possuem pelas belas meninas. Seriam eles
Narcisos contemporâneos em busca da imortal Anima?
Dayse Marques
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