sábado, 23 de abril de 2016

EDITH HEAD, OUSADIA E PIONEIRISMO NO FIGURINO DE CINEMA.

Muitas vezes quando assistimos uma novela ou filme, saímos marcados não só pela força das personagens, como também pela roupa que estes estavam usando. Nessas produções a narrativa dialoga diretamente com o figurino, e a maneira de vestir é uma arte que cabe ao profissional dedicado à pesquisa e a construção de um guarda-roupa, cuja  função principal é indicar características de comportamento  que nos ajudam a vivenciar a história das personagens. 

Para inaugurar o espaço dedicado a expressão do figurino no cinema e na televisão, presto uma homenagem a Edith Head, uma das figurinistas mais premiadas e citadas do cinema americano. 




Edith Claire Posener, nasceu em Nevada, EUA,  em 28 de outubro de 1898 e faleceu em Los Angeles em 24 de outubro de 1981. Em sua trajetória profissional foi ganhadora de 8 Oscars de melhor figurino e teve 35 indicações. Entre os seus trabalhos premiados estão A Malvada (1951), Um Lugar ao Sol (1952), A Princesa e o Plebeu (1954), Sabrina (1955), estes dois últimos representados pela atriz Audrey Hepburn, considerada um dos ícones da moda dos anos 50. O último  trabalho premiado da figurinista  foi pelo filme Um Golpe de Mestre (1971).

Ousada, Edith começou sua trajetória nos estúdios da Paramount quando respondeu a um anúncio para trabalhar no departamento de figurino. Conta a história que não sabia desenhar, e por isso pegou os desenhos de uma amiga e apresentou como se fossem seus e assim foi contratada.


Edith Head

Head, comecou na Paramount fazendo figurinos para filmes dos anos 30 e lá ficou por 44 anos, quando saiu em 1967 para seguir para a Universal Pictures. Mas foi na Paramount que aprendeu a desenhar. 

Naquela época as atrizes novatas não podiam opinar sobre o figurino que deviam usar, mas Edtih muito esperta, perguntava para elas o que gostariam. Quando então, estas  se tornaram famosas passaram a requisitar a figurinista para vesti-las. 


Head e seu desenhos

Edith era uma mulher clássica que preferia vestir cores sóbrias como preto, branco, bege e marrom. Sua marca registrada era seus óculos  escuros que na verdade tinham lentes azuis, um truque que facilitava a percepção dos figurinos em preto e branco da época 

Junto com o diretor Alfred Hitchcok criou o call board, uma espécie de story board específico para figurinos, assim podia visualizar os trajes de todos os personagens juntos na mesma cena. Edith gostava muito de trabalhar com Alfred, porque segundo ela, Hitchcock era o único diretor que descrevia meticulosamente as roupas das personagens. 


Figurino para o filme Os Pássaros de Hitchcok

Edith vestiu as maiores estrelas de Hollywood e por exigência dela e de outros figurinistas,  foi criado em 1948 o Oscar de Melhor Figurino, que naquela época era divido entre figurinos em preto e branco os de cor. Segundo Head:

 “O que um figurinista faz é uma mistura entre mágica e camuflagem. Nós criamos a ilusão de transformar os atores em quem eles não são. Nós pedimos ao público para acreditar que cada vez que eles vêem um artista na tela, ele se transformou em outra pessoa.”  



Figurino para o filme Sabrina com Audrey Hepburn
Uma carreira brilhante, que levou beleza e criatividade para as telas de Hollywood, só podia mesmo influenciar outros criadores, e assim ela reaparece como inspiração para a personagem Edna Moda na animação, Os Incríveis. É a figurinista se vestindo de personagem. 



   


terça-feira, 1 de setembro de 2015

INGRID BERGMAN 100 ANOS


Ingrid Bergman, uma das atrizes mais importantes e inesquecíveis do cinema, completaria 100 anos em 29 de agosto de 2015. E por este motivo a 68ª edição do Festival de Cannes, prestou uma homenagem a estrela que nasceu em Estocolmo (Suécia), mas que rompeu os limites das telas, quebrou paradigmas e causou polêmicas.




Sua estreia no cinema aconteceu quando estava com 17 anos, mas sua carreira alavancou quando iniciou uma parceria com Gustaf Molander. Porém, a consagração na Suécia chegou com ´´Itermezzo`` (1936) e partir de então iniciou uma carreira de sucesso em Hollywood.

Nos anos 40, Ingrid protagonizou 13 filmes, dos quais alguns fazem parte da série clássicos do cinema americano. Quem não se lembra da personagem, IIsa Lund Laszlo, no famoso Casablanca?

A significativa expressão do rosto da personagem, que revela sua emoção interior, durante os acordes da música As Time Goes By, marcou a atriz e encantou o público durante muito tempo.  Parece, que quando a atriz ia jantar em algum restaurante, onde havia um pianista, o maitre pedia para o músico tocar a canção para ela.



Em 1944, Ingrid recebeu a primeira estatueta do Oscar com o longa ´´À Meia Luz`` e no ano seguinte começou a trabalhar com o diretor Alfred Hitchcock, que gostava de  chamar de ´´um adorável gênio``, dando seguimento a sua brilhante carreira e estrelando, ´´Quando Fala um Coração`` (1945), Interlúdio (1946) e Sobre o Signo de Capricórnio (1949).

Mas, foi com o diretor italiano Roberto Rossellini que dividiu sua arte e sua vida. Com ele teve três filhos, entre os quais está a atriz Isabella Rosselini (Veludo Azul), e protagonizou 6 filmes. Entretanto, o efeito dessa relação não foi recebido de forma positiva nos EUA, gerando um grande escândalo para a época. Isto, porque ambos estavam casados quando se conheceram e a atriz teve que abandonar a filha, Pia, para ficar com Rossellini. Dessa união resultaram os filmes ´´Stromboli``, ´´Europa 51`` e ´´Romance na Itália``. 

Em 1956, Ingrid retorna a Hollywood para receber o seu segundo Oscar pelo filme ´´Anastasia``, mas a sua volta ao cinema americano não resultou em bons trabalhos, embora tenha sido premiada com um terceiro Oscar pelo filme, ´´Assassinato no Expresso Oriente``. No final da sua carreira a atriz fez um trabalho com o diretor Ingmar Bergman ´´Sonata de Outono``, no ano de 1978.



Ingrid morreu aos 67 anos de câncer de mama. A forte presença da atriz contribuiu para eternizar as diversas personagens que interpretou, e da mesma forma, sua vida levou o público a refletir sobre o papel feminino na sociedade. Podemos entender isso tomando como exemplo, mais uma vez, o filme Casablanca. Nele a personagem Ilsla, quebra a rotina diária de uma relação, para viver uma grande uma paixão em Paris, assunto que se propagou de forma impactante no público feminino da época.  

Segundo depoimento de sua filha Isabela Rosselini, "Ela mostrou que as mulheres são independentes, que as mulheres querem contar a sua própria história, querem tomar a iniciativa, mas às vezes elas não podem, porque às vezes a nossa cultura social não permite que as mulheres rompam com certas regras".

Parece que a vida de Ingrid Bergman também vale um filme.


sexta-feira, 28 de agosto de 2015

REFLETINDO SOBRE PERSONAGENS






´´Como já salientei antes, os personagens não nascem como as pessoas, da mulher, eles nascem de uma situação, uma frase, uma metáfora que contém em poucas palavras uma possibilidade humana básica, que o autor pensa que ninguém mais descobriu ou disse algo essencial sobre eles.``

                                                                                    Milan Kundera

                                                                                    

                                                                                                                                                                         

PERSONA/PERSONAGEM/MÁSCARA.

A palavra personagem deriva do grego persona, e desta mesma raiz etimológica nasceu a palavra pessoa. 

Os gregos deram este nome ao orifício que ficava localizado na boca das máscaras teatrais, e que ´´personava`` a voz dos atores. Per sonare significa ´´soar através de``. Porém, foi  no período romano que surgiu o termo personagem, palavra latina que tem origem no etrusco, ´´phersu`` .

Máscara do teatro grego.

Literalmente, persona significa máscara, e por este motivo está diretamente associada às máscaras que usamos para representar os diversos papéis sociais. Portanto, a personagem é a representação de um papel social vivido por um ator ou incorporado na imaginação do público, quando aquele não está fisicamente presente.

É a personagem que coloca a história ou obra em ação, seja ela real ou ficcional. Em geral personagens do cinema, teatro, Tv, quadrinhos e afins, são representados por pessoas, mas podemos encontrar humanizações em animais, objetos e sentimentos. Por este motivo podem ter nome ou não, e possuir qualquer tipo de personalidade.

No drama sueco Persona, (Quando duas Mulheres Pecam), o diretor Ingmar Bergman aborda o tema da representação social de forma reflexiva e complexa, uma vez que acontece uma fusão entre as personagens femininas a ponto de não reconhecerem mais a sua real face. A sinopse do filme descreve que :

 ´´Após um desempenho na peça "Electra", uma famosa atriz, Elisabeth Vogler (LIv Ullmann), pára de falar. Sua psiquiatra, Lakaren (Margaretha Krook), a deixa sob os cuidados de Alma (Bibi Andersson), uma dedicada enfermeira. Como já fazem três meses que Elisabet não profere uma palavra, Lakaren decide que ela deva ser mandada para uma isolada casa de praia, com Alma. Na casa Alma fala pelas duas, pois Elisabet continua muda, comunicando-se apenas com pequenos gestos. Com o convívio Alma fica uma pouco enamorada pela atriz. Num dia conta para Elisabeth sobre uma excitante experiência sexual que teve numa praia, com desconhecidos, e a conseqüência desagradável disto. Pouco depois de fazer esta confidência ela lê uma carta que Elisabeth tinha escrito, onde fica chocada ao descobrir que a atriz pensa nela como um divertido objeto de estudo. `` (http://www.adorocinema.com)

Cena do filme Persona, de Ingmar Bergmam
Interessante observar que o diretor, na medida em que coloca a personagem Alma para falar por Elisabet, reitera o princípio que conceitua a palavra persona. 

Este filme é um dos clássicos de Bergmam, e que muito embora seja complexo na sua abordagem e leitura, torna-se imperdível justamente por isso. Para conferir assista o filme, e mais abaixo o vídeo onde o jornalista e crítico de cinema, Marcelo Janot, analisa a obra. 

                                                                                                                    Dayse Marques 










quarta-feira, 26 de agosto de 2015

VERDADES SECRETAS DOS NARCISOS CONTEMPORÂNEOS

Diariamente entramos em contato com uma diversidade de tipos com os quais estabelecemos uma curiosa conexão. Seja através da televisão, do cinema ou do teatro, as personagens são representações dos arquétipos, mitos e símbolos, com os quais nos identificamos. Reais, históricas ou ficcionais, são simulacros de verdades e conceitos. Por este motivo, é muito comum encontrarmos personagens cujos traços tipificam os assuntos cotidianos.
Um dos temas mais explorados na atualidade refere-se às questões que envolvem a beleza, seja ela feminina ou masculina, o fato é que o assunto está cada vez mais em pauta.
Não é de hoje que a representação dessa temática vem sendo explorada tanto   pela literatura quanto pelo cinema, teatro e tv. Assim, o clássico mito de Narciso, construído pela mitologia grega e fartamente interpretado por diversos pintores e escritores, encontra na atualidade o seu similar.
Segundo a mitologia, Narciso foi um herói da Beócia, que possuía uma destacada beleza, e por esse motivo encantava tanto homens quanto mulheres. No dia em que nasceu, o adivinho Tirésias profetizou que o jovem teria vida longa, desde que jamais admirasse a sua própria figura. Porém Narciso era orgulhoso e arrogante, e desprezou diversas ninfas que estavam apaixonadas por ele. Segundo a mitologia, Afrodite executou uma vingança e condenou Narciso a apaixonar-se pela sua própria imagem refletida na lagoa da ninfa Eco. E assim, o belo jovem definhou. Depois de sua morte Afrodite o transformou na flor narciso.

O escritor Oscar Wilde explorou o assunto, no final do século XIX, no seu clássico O Retrato de Dorian Gray, onde a personagem narcisista criada por Wilde, faz determinadas escolhas para eternizar a sua juventude. As questões que estão por trás desta personagem encontram-se em destaque na atualidade, são elas: a manutenção da juventude e da beleza e o medo de envelhecer. Daí porque cirurgias plásticas, academias e drogas para rejuvenescimento estão cada vez mais em evidência.
Retrato de Dorian Gray
Narciso era belo e orgulhoso, e por este motivo despertou tanto atração e repulsão, de modo que o mito nos permite refletir que a beleza pode ser perigosa e destruidora. E por isso suscitar inveja e obsessões.
Na novela Verdades Secretas, (TV Globo-RJ-Brasil) a personagem Angel/Arlete (Camila Queiroz) é a jovem bela que desperta a paixão de Alex (Rodrigo Lombardi), um homem bem mais velho do que ela. Obcecado pela doce e linda Angel, Alex comete loucuras para não a deixar escapar da sua posse e controle.
Angel e Alex - Verdades Secretas
Na verdade, ficamos sabendo durante o desenrolar da história que Alex sempre teve interesse por meninas, sendo Angel a que mais o atraiu. Porém a ninfeta irá rejeitá-lo mais de uma vez, despertando ainda mais em Alex, o interesse, a cobiça e o sentimento de posse. Observamos então que a relação entre a protagonista e o seu par desenrola-se entre amor e ódio. Ao sentir que está perdendo terreno para o jovem amante da Angel, o estudante, Gui/Guilherme (Gabriel Leone), Alex começa a perder o controle e a evidenciar claramente a sua irritação diante da situação que se apresenta.
Angel e Guilherme - Verdades Secretas
Tudo caminha para um final trágico, pois a relação entre Angel e Alex gira em torno da atração e repulsa, e a tentativa de eternizar a juventude a partir dos desejos do homem mais velho.
Angel e Alex - Verdades Secretas
A relação Angel/Alex rebate também no clássico Lolita, do escritor Vladimir Nabokov publicado nos anos 1950, cuja juventude e beleza da personagem feminina atormenta a vida de um professor de filosofia. Neste clássico, o homem maduro (Humbert Humbert) é um professor de 37 anos que se apaixona pela menina de 12 anos. Após a trama conturbada, em que o professor acaba por tirar a vida de um homem, Humbert declara que o romance na verdade é a memória da sua vida, mas que só deveria ser publicado após a sua morte e da Lolita, para que ambos pudessem conservar a imortalidade.
Segundo Pausânias, (geógrafo e viajante grego) ao analisar o mito, Narciso tinha uma irmã gêmea e ambos se vestiam da mesma forma. Narciso apaixonou-se por ela, porém quando sua irmã morreu o jovem ficou desgostoso, e procurou ver no reflexo da água o rosto da sua irmã. Aprisionado, o jovem morre diante dessa ilusão imagética e aonde o corpo se encontrava surgiu uma flor que possui o seu nome. Aqui vale a pena nos voltarmos para o psicanalista Carl Gustav Jung, que estabeleceu os conceitos de Anima (personalidade interior feminina no homem) e Animus (personalidade interior masculina na mulher)
Assim, da mesma forma que no clássico Lolita, a relação entre Alex e Angel nos mostra o jogo complexo entre as partes femininas e masculinas que todos nós carregamos, e que por elas muitas vezes nos sentimos atraídos, mas que também rejeitamos.
A manutenção da beleza e também da juventude, é um trabalhoso exercício que aprisiona. Tanto na literatura como na novela, citadas aqui, são os personagens masculinos que se servem desse elixir, através das paixões e do desejo que possuem pelas belas meninas. Seriam eles Narcisos contemporâneos em busca da imortal Anima?
                                                                                                         Dayse Marques