Diariamente entramos em
contato com uma diversidade de tipos com os quais estabelecemos uma curiosa
conexão. Seja através da televisão, do cinema ou do teatro, as personagens são
representações dos arquétipos, mitos e símbolos, com os quais nos identificamos.
Reais, históricas ou ficcionais, são simulacros de verdades e conceitos. Por
este motivo, é muito comum encontrarmos personagens cujos traços tipificam os
assuntos cotidianos.
Um dos temas mais explorados
na atualidade refere-se às questões que envolvem a beleza, seja ela feminina ou
masculina, o fato é que o assunto está cada vez mais em pauta.
Não é de hoje que a
representação dessa temática vem sendo explorada tanto pela
literatura quanto pelo cinema, teatro e tv. Assim, o clássico mito de Narciso,
construído pela mitologia grega e fartamente interpretado por diversos
pintores e escritores, encontra na atualidade o seu similar.
Segundo a mitologia, Narciso
foi um herói da Beócia, que possuía uma destacada beleza, e por esse motivo encantava
tanto homens quanto mulheres. No dia em que nasceu, o adivinho Tirésias
profetizou que o jovem teria vida longa, desde que jamais admirasse a sua
própria figura. Porém Narciso era orgulhoso e arrogante, e desprezou diversas
ninfas que estavam apaixonadas por ele. Segundo a mitologia, Afrodite executou
uma vingança e condenou Narciso a apaixonar-se pela sua própria imagem refletida na lagoa da ninfa Eco. E assim, o belo jovem definhou. Depois de sua
morte Afrodite o transformou na flor narciso.
O escritor Oscar Wilde
explorou o assunto, no final do século XIX, no seu clássico O Retrato de Dorian
Gray, onde a personagem narcisista criada por Wilde, faz determinadas escolhas
para eternizar a sua juventude. As questões que estão por trás desta personagem
encontram-se em destaque na atualidade, são elas: a manutenção da juventude e
da beleza e o medo de envelhecer. Daí porque cirurgias plásticas, academias e
drogas para rejuvenescimento estão cada vez mais em evidência.
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| Retrato de Dorian Gray |
Narciso era belo e orgulhoso, e por este motivo despertou tanto atração e repulsão, de modo que o mito nos
permite refletir que a beleza pode ser perigosa e destruidora. E por isso suscitar inveja e obsessões.
Na novela Verdades Secretas, (TV Globo-RJ-Brasil) a personagem Angel/Arlete (Camila Queiroz) é a jovem bela que
desperta a paixão de Alex (Rodrigo Lombardi), um homem bem mais velho do que
ela. Obcecado pela doce e linda Angel, Alex comete loucuras para não a deixar escapar
da sua posse e controle.
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| Angel e Alex - Verdades Secretas |
Na verdade, ficamos sabendo
durante o desenrolar da história que Alex sempre teve interesse por meninas, sendo Angel a que mais o atraiu. Porém a ninfeta irá rejeitá-lo mais de
uma vez, despertando ainda mais em Alex, o interesse, a cobiça e o sentimento
de posse. Observamos então que a relação entre a protagonista e o seu par desenrola-se entre amor e ódio. Ao sentir que está perdendo terreno para o
jovem amante da Angel, o estudante, Gui/Guilherme (Gabriel Leone), Alex começa a
perder o controle e a evidenciar claramente a sua irritação diante da situação
que se apresenta.
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| Angel e Guilherme - Verdades Secretas |
Tudo caminha para um final
trágico, pois a relação entre Angel e Alex gira em torno da atração e repulsa, e
a tentativa de eternizar a juventude a partir dos desejos do homem mais velho.
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| Angel e Alex - Verdades Secretas |
A relação Angel/Alex rebate
também no clássico Lolita, do escritor Vladimir Nabokov publicado nos anos
1950, cuja juventude e beleza da personagem feminina atormenta a vida de um
professor de filosofia. Neste clássico, o homem maduro (Humbert Humbert) é um
professor de 37 anos que se apaixona pela menina de 12 anos. Após a trama
conturbada, em que o professor acaba por tirar a vida de um homem, Humbert
declara que o romance na verdade é a memória da sua vida, mas que só deveria
ser publicado após a sua morte e da Lolita, para que ambos pudessem conservar a
imortalidade.
Segundo Pausânias, (geógrafo
e viajante grego) ao analisar o mito, Narciso tinha uma irmã gêmea e ambos se
vestiam da mesma forma. Narciso apaixonou-se por ela, porém quando sua irmã
morreu o jovem ficou desgostoso, e procurou ver no reflexo da água o rosto da sua
irmã. Aprisionado, o jovem morre diante dessa ilusão imagética e aonde o corpo
se encontrava surgiu uma flor que possui o seu nome. Aqui vale a pena nos
voltarmos para o psicanalista Carl Gustav Jung, que estabeleceu os conceitos de
Anima (personalidade interior feminina no homem) e Animus (personalidade
interior masculina na mulher)
Assim, da mesma forma que no
clássico Lolita, a relação entre Alex e Angel nos mostra o jogo complexo entre
as partes femininas e masculinas que todos nós carregamos, e que por elas
muitas vezes nos sentimos atraídos, mas que também rejeitamos.
A manutenção da beleza e também da juventude, é um
trabalhoso exercício que aprisiona. Tanto na literatura como na
novela, citadas aqui, são os personagens masculinos que se servem desse elixir,
através das paixões e do desejo que possuem pelas belas meninas. Seriam eles
Narcisos contemporâneos em busca da imortal Anima?
Dayse Marques





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